domingo, 27 de janeiro de 2013

Detona Ralph


O mundo dos games já foi explorado no cinema diversas vezes, tanto em adaptações diretas, como em citações. Temos como exemplos: Street Fighter – A Última Batalha (1994); Super Mario Bros (1993); todos os cinco filmes da série Resident Evil (2004-2012); Hitman (2008), entre outros. Nas animações o tema não é tão recorrente, e nada melhor que a Disney para olhar esse segmento com mais atenção e explorá-lo melhor.

Detona Ralph conta a história de um vilão de um jogo de fliperama determinado a provar que pode ser um herói. Ralph (voz no original de John C. Reilly e versão brasileira de Tiago Abravanel) quer muito ser tão adorado quanto seu adversário de jogo, o herói perfeito, Conserta-Felix Jr. (voz de Jack McBrayer/Rafael Cortez). O problema é que ninguém gosta de bandidos. Mas todo mundo adora heróis. A única saída que ele vê é ganhar uma medalha dourada igual à do Felix. Nessa jornada ele conhece a pequena Vanellope Von Schweetz (Sarah Silverman/MariMoon), um "bug", do game de corrida Sugar Rush. Como ambos são párias em seus jogos, o objetivo em comum, fala mais alto do que suas diferenças, mas pouco a pouco a amizade entre eles vai surgindo.
 
Embora o filme seja extremamente carismático para adultos e crianças e tenha um ótimo começo, o enredo principal, aos poucos, se mostra simples demais e o roteiro se perde em subtramas forçadas e ideias mal desenvolvidas. Se melhor trabalhados, poderiam dar a espaço a uma jornada mais interessante, o que tornaria a produção muito mais divertida.
 
 
Os personagens principais são ótimos. A pequena Vanellope toma a cena. A menina é irritante, mas tem um jeito sacana e engraçado, lembrando muito a Boo de Monstros S.A.. Assim como Ralph, a garotinha vive à margem da sociedade e ambos se unem na luta por aceitação contra o Rei Doce (voz de Alan Tudyk/Roberto Carrillo), principal antagonista do longa.
 
Vale destacar ainda o perfeito designer de todo o universo que a trama se passa, é realmente um trabalho brilhante – a mistura de jogos antigos e os atuais em alta definição impressiona. A maneira como personagens de games antigos se movem com lag enquanto os dos mais novos tem movimento fluído é outra grande sacada. A trilha sonora é ótima, com clássicos dos jogos e novos arranjos, ela não esquece da origem dos games e é toda repleta de referencias. Um trabalho de pesquisa muito interessante os "viciados" em games irão pirar. Outro bom detalhe é que a dublagem brasileira foi bem feita e tomou cuidado para respeitar alguns termos conhecidos dos gamers, enquanto outros ainda soam estranhos em português.
 
 
O longa está recheado de easter eggs. Eles vão desde a "participação especial" de personagens famosos de games reais, como o Sonic, Ryu e Ken do Street Fighter, e alguns deles históricos, como o Q*Bert e as barrinhas de Pong, até mesmo a situações que as crianças talvez não entendam ainda, mas os adultos vão se divertir. É o caso, por exemplo, do lago gigante de Coca Diet coberto por estalactites de Menthos.
 
O filme não é inovador no seu conceito, é uma visão muito semelhante a um Toy Story. Mas mesmo assim ele consegue ser o melhor filme já feito inspirado no universo dos videogames. É uma pena que o longa tenha perdido a oportunidade de ser mais criativo e ousado, mas ainda é uma bela animação, capaz de levar os fãs de jogos eletrônicos a uma viagem nostálgica e ainda divertir todos os públicos.
 
 
 
7 PIPOCAS!
 
 
 
 
Wreck-it Ralph – EUA, 2012 – 108 min.
 
Direção: Rich Moore
 
Roteiro: Phil Johnston, Jennifer Lee

Elenco: John C. Reilly, Jack McBrayer, Jane Lynch, Sarah Silverman, Mindy Kaling
 



sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O Hobbit - Uma Jornada Inesperada


Quase uma década após o fim da trilogia O Senhor do Anéis, o diretor Peter Jackson volta aos cinemas com uma nova trilogia baseada no livro onde tudo começou, O Hobbit. A "jornada inesperada" de Bilbo Bonseiro foi criada como um romance infantil para os filhos de J. R. R. Tolkien, o autor não esperava a proporção que essa "simples" história tomaria, e depois de algum tempo, a partir dela, desenvolveu toda a mitologia criada em O Senhor dos Anéis. Com o sucesso dos filmes, finalmente estreia a adaptação cinematográfica da história que mudou o gênero fantasia na literatura.

A aventura conta a trajetória do personagem-título Bilbo Bolseiro, que enfrenta uma jornada épica para retomar o Reino de Erebor, terra dos anões que foi conquistada há muito tempo pelo dragão Smaug. Levado à empreitada pelo mago Gandalf, o Cinza, Bilbo encontra-se junto a um grupo de treze anões liderados pelo lendário guerreiro Thorin Escudo-de-Carvalho.


O filme tem um clima mais leve – ou menos "sombrio" – que O Senhor dos Anéis, mas não deixa de ter todos os elementos consagrados da trilogia. As batalhas, fotografia incrível, personagens característicos,  trilha sonora empolgante, não foram esquecidos. A diferença maior é o humor usado durante o filme. Isso fica claro logo na primeira cena onde aparece Gandalf e Bilbo lhe deseja um bom dia,  há uma abordagem mais inocente nos personagens, mas sem descaracterizar a mitologia da Terra-Média mostrada em O Senhor dos Anéis.

Todos os atores estão ótimos, e lembrando que são muitos, afinal a jornada principal conta com os treze anões, mais Bilbo e Gandalf. Esses dois com certeza são os que merecem maior destaque. Martin Freeman faz um excelente trabalho, demonstra o carisma que um Hobbit deve ter, e Ian McKellen mais uma vez faz com excelência seu papel de Gandalf, porém, dessa vez fica óbvio que está mais a vontade, pois interpreta Gandalf, o Cinzento, que seria uma "fase" do mago mais descontraído, mais divertido. Vimos isso na cena onde um anão oferece chá para Gandalf, que recusa de prontidão dizendo que prefere vinho.


Peter Jackson toma liberdades criativas com o material original para engrandecer a história. Personagens da Trilogia do Anel, que só foram criados anos depois da concepção de O Hobbit, são "convidados" a participar da aventura, bem como personagens citados apenas nos apêndices dos livros (parte do intrincado processo criativo de Tolkien). Um vilão, por exemplo, é criado na figura de Azog (Manu Bennett), um líder orc que flagelou anões nas histórias de rodapé da saga de Tolkien. O personagem é trazido aqui para criar um contraponto à nobreza de Thorin Escudo-de-Carvalho (Richard Armitage), o líder da comitiva de anões. Claro que complementando a história e personagens para a trama faz com que aumente o tempo de duração do filme, são 169 minutos e acredito que não há sequências "sobrando", mas certamente há alguma gordura em cada uma delas que poderia ter sido dispensada na sala de edição. A batalha na cidade dos orcs, talvez tenha ficado extensa demais.

Tecnicamente, não há do que reclamar. Jackson basicamente desenvolveu versões 2.0 de todos os efeitos especiais que inventou para a primeira trilogia. O sistema que cria exércitos com movimentação aleatória, para preencher grandes campos de batalha sem a necessidade de figurantes, está inacreditável. Basicamente, é possível acompanhar –  com o auxílio da alta definição –  qualquer personagem na tela e ver pequenas histórias se desenvolvendo em meio a milhares de embates. As criaturas também atingiram um nível de perfeição de deixar James Cameron com inveja. Os três trolls chegam a ser nojentos de verdade, enquanto wargs, goblins e orcs nunca estiveram tão fisicamente presentes. Sem falar em Gollum (Andy Serkis), que retoma sua coroa de melhor personagem 3D já criado, com um modelo ainda mais detalhado e capaz de mais nuances de expressão. Ver Gollum no cinema, certamente é uma experiência única.


Os 48 quadros

Peter Jackson completa seu retorno à Terra-média com uma novidade tecnológica: os 48 quadros por segundo. Desde sempre,  o cinema precisou de 24 quadros para que o cérebro humano registrasse as imagens em movimento. São 24 quadros, para se fazer 1 segundo de movimento. Em O Hobbit, o movimento é feito com 48 quadros, é o dobro do que todos estão acostumados. O resultado do dobro de informação, toda ela em alta definição e registrada em 3D pelas novíssimas câmeras Red Epic, é hipnótico. Eu assisti as duas versões, em 2D com 24 quadros e a versão 3D com 48 quadros, e recomendo gastarem um pouquinho mais para ter a experiência em 48 quadros por segundo. Basicamente, depois de alguma estranheza inicial (eu demorei alguns minutos para parar de achar que tudo estava andando em câmera acelerada), a definição cristalina empolga de verdade. O Hobbit é quase hiper-realista nessa versão.

Os fãs fervorosos da mitologia de Tolkien podem ficar tranquilos quanto a adaptação. Toda magia e qualidade técnica vista em O Senhor dos Anéis, continua em O Hobbit. Claro, sempre deve-se lembrar que uma adaptação nunca vai ser 100% igual a obra original. Afinal, são mídias diferentes. Mas é notório que Peter Jackson é um fã de Tolkien e que se esforça para transmutar as palavras em imagens. A magia de J. R. R. Tolkien continua viva, na literatura e ainda nos cinemas.


9 PIPOCAS!



The Hobbit – An Unexpected Journey – Nova Zelândia, EUA , 2012 – 169 min.

Direção: Peter Jackson

Roteiro: Peter Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens, Guillermo del Toro

Elenco: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, James Nesbitt, Adam Brown, Aidan Turner, Dean O'Gorman, Graham McTavish, John Callen, Stephen Hunter, Mark Hadlow, Manu Bennett, Peter Hambleton, Ken Stott, Jed Brophy, William Kircher, Jeffrey Thomas, Mike Mizrahi, Cate Blanchett, Hugo Weaving, Elijah Wood, Andy Serkis, Sylvester McCoy, Lee Pace, Bret McKenzie, Barry Humphries, Benedict Cumberbatch



terça-feira, 1 de janeiro de 2013

As Aventuras de Pi

 
A Vida de Pi (The Life of Pi), de Yann Martel, é um livro publicado em 2001 que teve mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos em todo o mundo e ganhou em 2002 um Booker Prize (prêmio literário criado em 1968, sendo um dos mais importantes atribuídos anualmente). Com esse sucesso evidente, é claro que a velha Hollywood não poderia deixar passar, e em dezembro de 2012 é lançado nos cinemas a versão cinematográfica do livro. Aqui no Brasil, o filme teve o péssimo título de As aventuras de Pi.
 
Pi Patel (Suraj Sharma) é filho do dono de um zoológico localizado em Pondicherry, na Índia. Após anos cuidando do negócio, a família decide vender o empreendimento. A ideia é se mudar para o Canadá, onde poderiam vender os animais para reiniciar a vida. Entretanto, o cargueiro onde todos viajam acaba naufragando devido a uma terrível tempestade. Pi consegue sobreviver em um bote salva-vidas, mas precisa dividir o pouco espaço disponível com uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre de bengala.
 
 
Antes de mais nada, quero deixar claro que não li o livro, por isso faço a minha análise totalmente independente de critérios de comparação. Acredito que 70% da história se passa em "alto mar", logo, o filme foi quase que inteiramente rodado dentro de um estúdio. Isso possibilita a criação de um mar infinito e cenários de uma beleza ímpar. É aí que entra o talento do diretor chinês Ang Lee, que consegue com maestria mostrar novamente uma sensibilidade incrível. A fotografia também está fantástica. Todas as cores, formas, luzes se complementam de uma maneira muito satisfatória. Visualmente é um filme impecável. Isso também pode-se dizer do tigre; é impressionante o grau de realismo do animal, que foi recriado digitalmente em quase todo o longa. É um trabalho de captura de performance e estudo da movimentação do animal muito real. Fruto do trabalho da Rhythm & Hues Studios, a mesma que criou o leão de Nárnia.
 
A atuação de Suraj é emocionante. Desde o ínicio, mesmo quando não havia o sofrimento, o indiano – que mora com seus pais matemáticos em Delhi, e que venceu uma disputa com 3 mil concorrentes pelo papel de Piscine Patel – me surpreendeu. Ele consegue nos fazer rir, chorar e se comover entre uma cena e outra. É claro que a história tem como base o sofrimento, mas Suraj consegue demosntrar claramente a sensabilidade e a dor vivida pelo personagem Pi. As cenas de interação com o tigre são fantásticas. Há momentos que você não tem dúvidas que o tigre é real e está bem a frente do ator. Ao longo da trama essa relação do animal selvagem com o garoto solitário não para de evoluir, e até o final do filme, você não sabe onde ela vai parar. Aliás, o final da história nos trás uma interpretação totalmente diferente e comovente.
 
 
O que eu não consigo entender é por que aqui no Brasil o filme foi traduzido como As aventuras de Pi. Esse título não reflete em nada o que é a história. O filme é sério, dramático e denso, não é As Viagens de Gulliver ou Jornada ao Centro da Terra. E com certeza é por causa disso que na sessão onde eu assisti, estava cheia de crianças rindo o tempo todo. As pessoas olham o cartaz, um homem, um tigre e o título As Aventuras de Pi e vão pro cinema com crianças pensando em algo como: "Um homem e seu tigre se envolvendo em altas confusões com uma galerinha do barulho, vivendo grandes aventuras!". Isso é triste.
 
Como disse anteriormente, não posso julgar o filme como adaptação literária, mas como simples cinema, As aventuras de Pi é excelente. História comovente, que nos faz refletir sobre a vida, em diversos sentidos. Pi Patel pode ser qualquer um de nós.
 
 
9  PIPOCAS!
 
 
 
 
The Life of Pi - EUA, 2012 - 127 min.
 
Direção: Ang Lee
 
Roteiro: David Magee
 
Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Tabu, Adil Hussain, Gerard Depardieu, Rafe Spall