segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Espetacular Homem-Aranha


Foi no ano de 1995, na escola onde eu estudava, mais precisamente na 5ª série F. Nesse dia eu tive contato pela primeira vez com uma história em quadrinhos de super-heróis. E esse herói era o Homem-Aranha. Desde então, esse mundo me fascinou, e até hoje sou fã incondicional de quadrinhos. E sou mais fã ainda do Homem-Aranha. Logo, tive que esperar sete anos para ver o meu herói preferido nos cinemas. A trilogia Homem-Aranha (2002), Homem-Aranha 2 (2004) e Homem-Aranha 3 (2007) foi um grande sucesso de bilheteria, tanto que renderia um quarto filme. Mas, por motivos de contrato com atores e a recusa do diretor Sam Raimi (que foi obrigado a aceitar mudanças no roteiro do terceiro filme, como a introdução do personagem Venom, pelos executivos da Sony), foi-se decidido que a melhor opção seria realizar um reboot da série, uma alternativa arriscada, pois em menos de 10 anos já se atualizaria uma saga que estava recente demais na memória das pessoas.

Nessa nova aventura, toda a beleza e simplicidade criada por Stan Lee e Steve Ditko no início da década de 1960, de um garoto frágil e inseguro, extremamente impopular no colégio, alvo de valentões, e sem as ferramentas sociais que lhe valeriam uma namorada, amigos ou um lugar no grupo é deixada de segundo plano. Não é mais a síntese do herói. O Peter Parker na pele de Andrew Garfield, não tem nada de desajeitado: anda de skate, usa lentes de contato e enfrenta valentões de peito aberto – ao receber seus poderes, a única mudança é que ele efetivamente consegue derrubá-los. Peter Parker não é mais uma vítima, mas um herói desde o início. A ideia parece boa a princípio, mas se analisada, diminui o conceito de quem é e como foi criado o personagem nos quadrinhos. Que na minha opinião, deve-se ser sempre a principal ideia.


Focando apenas no filme em si, e ignorando todas as exigências de fã antigo, o longa tem ótimos elementos de adaptação, mas possui mais elementos negativos e difíceis de aceitar. Os atores Andrew Garfield (Peter Parker), Emma Stone (Gwen Stacy) e Martin Sheen (Tio Ben) são fisicamente perfeitas escolhas. As interações entre eles são ótimas e só melhoram na direção de Marc Webb (500 Dias Com Ela), que sabe muito bem como extrair atuações honestas desse tipo de cenas de intimidade. Os diálogos iniciais entre Peter e Gwen são engraçados e bem fiéis aos das HQs da década de 1960. O tio Ben está bem caracterizado também, apenas tia May de Sally Field está um tanto apagada, um tanto decepcionante. Já o vilão Curt Connors/Lagarto (Rhys Ifans) está totalmente descaracterizado. Surge sem a sua família (algo fundamental para suas motivações nos quadrinhos) e mais inteligente, falador até. Ainda que em algumas HQs o vilão retenha inteligência, ele destacou-se sempre como um fera enlouquecida e sem controle. Na trama em si ele funciona bem, garantindo a ação. Para os fãs, porém, sua participação na criação do próprio Homem-Aranha, a ligação com o pai de Peter e outras alterações em relação à origem consagrada podem parecer devaneios mercadológicos de produção. Mudanças desnecessárias.


O filme também cria uma situação mal resolvida em relação aos pais de Peter. Totalmente sem sentido. Entendo que é um gancho para os próximos filmes, mas mesmo assim, é uma situação que não precisava ser desenvolvida. Nos materiais de divulgação, havia a frase: " A história nunca antes contada", e por que será que nunca foi? Outra questão muito mal explorada é a morte do Tio Ben. Esse fato é de suma importância na decisão de Peter em usar seus poderes para ajudar as pessoas, de realmente se tornar um herói. No filme ela é tratada como algo banal e irrelevante. Dá entender que tanto faria se Ben morresse, ou não. Até a célebre frase "Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades", não é citada. Por quê?

O que há de melhor no filme são as cenas de ação. Todas estão espetaculares. O Aranha está muito mais ágil e veloz, seus movimentos estão muito mais parecidos com os dos quadrinhos do que os filmes anteriores. A maneira como ele luta, se desvia, salta, lança a teia está perfeita. Até o uniforme que foi tão criticado quando apareceu pelas primeiras vezes em fotos, está bom. Mesmo mudando um pouco o design e as cores, pode-se afirmar que o uniforme foi aprovado. O humor negro e infâme está muito mais presente também. Os lançadores de teia ficaram excelentes. A cena onde Peter cria uma teia "gigante" no túnel do esgoto está memorável. Aliás, todas as lutas contra o Lagarto estão. Foram três durante o longa, mas entraram para a história do cinema.


Infelizmente o roteiro remendado de Alvin Sargent, James Vanderbilt e Steve Kloves exige uma carga extra de suspensão de descrença (maior do que acreditar que alguém vira uma aranha-humana ao ser picado) quando entram os elemento super-heróicos. Por exemplo, não dá pra aceitar que Gwen Stacy, uma mera estudante colegial de 17 anos, por mais brilhante que seja (e não vemos provas desse brilhantismo em momento algum), seja uma superestagiária-chefe em um dos maiores laboratórios de pesquisa do mundo (a Oscorp), cheia de responsabilidades que serão a chave para a resolução da trama. A história, portanto, depende demais de coincidências convenientes para se manter em pé. Acompanhe: o pai de Peter está relacionado ao cientista Curt Connors, que por sua vez é chefe de Gwen Stacy, que estuda na mesma classe de Peter, que encontra a pasta de seu pai que contém documentos indispensáveis à pesquisa de Connors, na qual Gwen trabalha ativamente! Mais uma vez, por quê?

É realmente uma  pena que o roteiro não esteja à altura do legado do personagem tanto nos quadrinhos, como no cinema. Se os produtores erraram ao forçar demais a mão em Homem-Aranha 3, arrancando de Sam Raimi sua liberdade criativa, e o perderam ao tentar fazê-lo mudar de ideia quanto aos vilões e o tipo de filme que Homem-Aranha 4 deveria ser, aqui erram com a mesma intensidade. Se tivesse este mesmo visual e técnicas e contasse com um roteiro mais simples e fiel a obra original, o filme seria realmente espetacular, mas infelizmente, espetacular fica apenas no título.


4,5 PIPOCAS!

 
 
 
 
The Amazing Spider-Man – EUA , 2012 – 136 min.

Direção: Marc Webb

Roteiro: Alvin Sargent, James Vanderbilt, Steve Kloves

Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Denis Leary, Martin Sheen, Sally Field, Irrfan Khan, Campbell Scott, Embeth Davidtz, Chris Zylka, Max Charles


 


6 comentários:

Mafe disse...

Realmente esse filme deixou a desejar espera mais.

Thiago Sakowski disse...

Olá Mafe, é verdade, muitas pessoas comentaram comigo que não gostaram do filme. É realmente uma pena o que fizeram com a essência do Aranha. Mas vamos ter esperança que nos dois próximos filmes tudo melhore. Obrigado pelo comentário!

Mafe disse...

Nossa ainda vai ter mais dois filmes?! tomara que se regenere e então faça um filme como antes, emocionante de assistir!!

Anônimo disse...

Discordo de vcs, gostei muito do filme e acho que o filme não precisa seguir sempre a mesma linha para ser bom algumas mudanças são bem vindas.

Anônimo disse...

Filme muito bom, o Homem Aranha sempre surpreendendo.

Thiago Sakowski disse...

Olá! Concordo com você que mudanças são bem-vindas, mas como tinha citado no texto, eu sou muito fã do Aranha e achei que as essas mudanças específicas não ficaram boas, elas acabaram alterando a essência do personagem... mas é claro que isso é coisa de fã chato mesmo! rs valeu pelo comentário!