quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Drive

 
Quando Drive chegou aos cinemas brasileiros, a minha curiosidade foi desperta, por tudo que a mídia especializada estava dizendo e por se tratar de um filme do dinamarquês Nicolas Winding Refn, vencedor do prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes. Infelizmente, não tive a oportunidade de vê-lo no cinema, mas assisti o DVD em casa. E posso dizer que a minha curiosidade foi totalmente saciada, e por um lado bom.

Na trama, um dublê de Hollywood (Ryan Gosling), que à noite trabalha como motorista de fugas para criminosos – com um talento raro para pilotar carros – e na oficina de Shannon (Bryan Cranston), a quem trata quase como pai, descobre que há um preço pela sua cabeça depois que ajudou o namorado ex-presidiário (Oscar Isaac) de sua vizinha (Carey Mulligan) em um golpe que acabara mal.
 
 
É com uma trama realmente simples que o filme surpreende. A forma como o diretor mostra as situações que são consideradas clichês, define todo o roteiro e o visual do filme. Lembrando muito a estética dos filmes oitentistas, fica evidente o talento do dinamarquês para filmar sempre pensando numa iconografia, por exemplo, o ator principal aparece com frequência nos cantos do Scope, o que reforça o seu caráter de justiceiro solitário, e o galã reage bem a essa proposta. Com uma jaqueta dourada, tendo um escorpião às costas – um símbolo do personagem; (em determinado momento, ele se refere à história da rã e do escorpião), ele, talvez por participar de filmagens, parece ter dificuldades para ter uma personalidade própria: o palito no canto da boca e o olhar de quem guarda segredos que não podem ser ditos parecem mais clichês de justiceiros do cinema. Ryan Gosling realmente se destaca e se consagra com a melhor atuação do longa.
 
 
O que se destaca também é a violência intensa presente em quase toda a dissolução da história. Elementos de filmes de máfia fazem parte em um modo geral de toda ação. E é nesse momento que o filme se mostra mais do que é. Não importa a ação e nem o ritmo, a forma como é mostrado e editado, tanto pelos planos de câmera, pela trilha e pelo o uso da câmera lenta, é o que faz a diferença. A mescla de gêneros – momentos de drama, ação, e até mesmo romance – faz com que o filme se torne surpreendente. 
 
Drive é um clichê original.



 
7,5  PIPOCAS! 




Drive – EUA, 2011 – 100 min.            

Direção: Nicolas Winding Refn

Roteiro: Hossein Amini, James Sallis (livro)

Elenco: Ryan Gosling, Carey Muligan, Albert Brooks, Bryan Cranston, Ron Perlman, Oscar Isaac, Christina Hendricks





sexta-feira, 7 de setembro de 2012

50%


O câncer e a turbulência que ele provoca na vida de sua vítima já foram retratados de diversas maneiras no cinema: do melodrama açucarado à comédia de humor negro. Na televisão americana, dois ótimos seriados também abordam o tema: a série de ação Breaking Bad (2008-2011) e a comédia dramática The Big C (2010-2011). Desta vez, ele é retratado em 50%.
 
O longa veio para o Brasil direto para as locadoras e é baseado no livro I’m With Cancer, uma biografia do roteirista Will Reiser. Conta a história de Adam (Joseph Gordon-Levitt) um jovem de 27 anos que leva uma vida saudável e regrada, ao lado de sua namorada Rachael (Bryce Dallas Howard). O rapaz trabalha numa rádio em Seattle ao lado de seu melhor amigo Kyle (Seth Rogen). Após sentir dores na região lombar, ele procura um médico e é diagnosticado com um tumor maligno na coluna. Após uma pesquisa na internet, ele descobre que tem 50% de chance de sobreviver à doença.


Levado com uma tocante sensibilidade, o longa pode ser considerado o primeiro feeling good movie sobre câncer. O diretor Jonathan Levine acerta em cheio em tocar o filme para frente mostrando claramente a dor de parentes e amigos que percebem que alguém próximo tem a doença, as dúvidas sobre o futuro que o diagnosticado pode enfrentar e ao mesmo tempo tratar tudo isso com um olhar focado nas chances que a pessoa tem de melhora. Afinal, se uma doença te dá 50% de chances de vida, porque olhar apenas para a outra metade?

Outra qualidade do filme é saber diluir a comédia no drama, nos presenteando com momentos emocionantes (como o do colapso nervoso de Adam) e algumas tiradas engraçadas. Mesmo que o trabalho do jovem diretor Jonathan Levine não seja notável, ele demonstra sensibilidade ao retratar o universo ligeiramente melancólico de Adam.


A qualidade técnica do filme também deve ser lembrada. Edição, fotografia, trilha sonora estão impecáveis, e as atuações não deixam por menos. Nunca antes o papel de Seth Rogen como Seth Rogen foi tão bem colocado. Anna Kendrick como a psicóloga de Adam ganha vários pontos por sua simpatia, Serge Houde como o pai com alzheimer aparece pouco, mas ganha peso numa das partes finais do longa, e Anjelica Huston surge como a típica mãe protetora, mas sem exagerar a ponto de deixar o espectador a ponto de não gostar dela. Mas é realmente Joseph Gordon-Levitt que convence à todos como o sujeito que aceita tudo que acontece com ele e vai se transformando aos poucos em alguém que não quer desistir. Acredito que Joseph já é considerado um dos melhores atores da "nova geração" e tem tudo para continuar melhorando. Será um ator lembrado por todos no futuro.

50% tenta fugir dos extremos, não investindo nem no melodrama, nem numa abordagem fria. O roteiro do filme exibe uma visão que revela a sinceridade tocante de alguém que já vivenciou o drama da doença. Sendo assim, o longa não minimiza o sofrimento de se estar com câncer, mas também não faz dele uma tragédia. Acompanhamos, ao longo da história, a evolução da maneira com a qual o protagonista lida com sua nova realidade, as etapas da sua aceitação. É um filme que mescla drama, humor e emoção de uma maneira muito coesa. É um ótimo filme que revela um retrato sensível da luta pela vida.


 
8  PIPOCAS!
 
 
 
 
50/50 EUA, 2011 – 100 min.
 
Direção: Jonathan Levine
 
Roteiro: Will Reiser
 
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Bryce Dallas Howard, Anna Kendrick, Anjelica Huston, Serge Houde
 



quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Valente


A cada ano que passa, a parceria Disney/Pixar vem provando a sua competência e nos mostrando a sua superioridade qualificada. Mas por outro lado, pode-se afirmar também que essa mesma parceria está nos deixando mal acostumados. É por isso que já tem gente por aí falando que a Pixar entrou em decadência depois de ser vendida para a Disney. Mas o que podemos fazer se foi daquelas mentes criativas que saíram algumas das melhoras animações dos últimos 20 anos, como Toy Story, Wall-E e Monstros S.A., para citar só três deles? Um dos argumentos utilizados é que a Pixar se rendeu às necessidades do mercado (leia-se: necessidades da Disney), tendo que produzir continuações, como Carros 2, o próprio Toy Story 2 e 3 e Universidade Monstros (filme sendo produzido e previsão de estreia para ano que vem), que ajudam a alimentar as lojas de seus parques temáticos com mais produtos altamente rendáveis. E a prova definitiva disso, seria a estreia de um filme novo, tendo pela primeira vez uma personagem feminina – e princesa – como protagonista. Pronto, isso bastaria para o argumento ser completo, mas felizmente, Valente não é a prova final da decadência criativa, é sim um bom filme com uma excelente personagem.

O filme conta a história da jovem princesa Merida, que foi criada pela mãe para ser a sucessora perfeita ao cargo de rainha, seguindo a etiqueta e os costumes do reino. Mas a garota dos cabelos rebeldes não tem a menor vocação para esta vida traçada, preferindo cavalgar pelas planícies selvagens da Escócia e praticar tiro ao arco. Quando uma competição é organizada contra a sua vontade, para escolher seu futuro marido, Merida decide recorrer à ajuda de uma bruxa, a quem pede que sua mãe mude. Mas quando o feitiço surte efeito, a transformação da rainha não é exatamente o que Merida imaginava. Agora caberá à jovem ajudar a sua mãe e impedir que o reino entre em guerra com os povos vizinhos.


Visualmente falando, não tenho dúvida que essa é a animação mais linda e perfeita que eu já assisti. É deslubrante o trabalho que fizeram com todos os detalhes e movimentos, de todos os elementos em cena. A vegetação, as águas, o fogo e até mesmo o pelo dos animais estão incríveis. Isso é algo que realmente deve ser ressaltado. É o ponto forte do longa. Em alguns momentos, tive dúvida se eram imagens em modelagem 3D ou se eram cenas reais, mescladas com a animação. Outro detalhe também são os cabelos da Merida. Antes de assistir o filme, tinha lido várias críticas falando sobre seus cabelos, até então, achava que não passavam de exageros, mas me enganei. O maior desenvolvimento técnico da Pixar são os cabelos desgrenhados de Merida, é algo nunca visto em qualquer tipo de animação. É impressionante a vida dada a eles.

A história em si segue bastante a cartilha da Disney, porém, isso não pode ser tratado de uma maneira negativa. Temos que ter em mente que este "estilo" foi construído pela empresa durante décadas, são regras que ajudaram a cimentar os gêneros da animação e dos contos de fadas e transformá-los no que eles são hoje. Mas é claro que fica uma frustação, afinal sempre esperamos que os gênios da Pixar  poderiam ter criado algo diferente e genial de novo. Valente não é um filme que entra para a história das melhores animações, mas tem uma história redonda e bem contada. Outra característica que deve ser lembrada é que todos os personagens estão ótimos. Nesse sentido, o filme pode ser comparado à Toy Story e Monstros S.A., pois possuem um elenco incrível. Desde a excelente protagonista até os coadjuvantes e "elenco de apoio". Os irmãos trigêmeos de Merida não possuem fala nenhuma, mas são engraçados e dinâmicos o tempo todo. O seu pai junto com os clãs que visitam o reino em busca do amor da princesa também são ótimos alívios cômicos.


E ainda tem mais uma vez a homenagem da Pixar ao estúdio Ghibli, (responsável por animações feitas em 2D, como  Meu Vizinho Totoro (1988); Castelo Animado (2004); Ponyo – Uma Amizade que veio do Mar (2008), entre outras) de Hayao Miyazaki, presente nas criaturas fantásticas que levam a princesa Merida até a casa de uma bruxa, que deve ser irmã da Yubaba, a bruxa má de A Viagem de Chihiro (2001).

Como já foi dito, o novo filme da Pixar pode ser considerado, visualmente falando, o mais lindo e incrível já feito, mas infelizmente, o roteiro deixa a desejar um pouco. Sempre que ouvimos falar de Pixar/Disney, esperamos o mais novo clássico das animações, mas temos que saber que mesmo que isso aconteça de tempos em tempos, não acontece sempre. Talvez por esta mal acostumado, me torno cada vez mais exigente e acabo me frustando. Porém, Pixar/Disney ainda é um excelente motivo para ir ao cinema, e pelo que já foi mostrado continuar a esperança de mais e mais aventuras criativas e tiros certeiros. É o que eles nos ensinaram ser o certo. É o que esperamos deles.


7,5 PIPOCAS!
 

 
 
Brave – EUA , 2012 – 95 min.

Direção: Mark Andrews e Brenda Chapman
 
Roteiro: Mark Andrews, Brenda Chapman, Steve Purcell, Irene Mecchi     
 
Elenco: Kelly Macdonald, Emma Thompson, Billy Connolly, Kevin McKidd, Craig Ferguson, Robbie Coltrane, Julie Walters
 
 





segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Espetacular Homem-Aranha


Foi no ano de 1995, na escola onde eu estudava, mais precisamente na 5ª série F. Nesse dia eu tive contato pela primeira vez com uma história em quadrinhos de super-heróis. E esse herói era o Homem-Aranha. Desde então, esse mundo me fascinou, e até hoje sou fã incondicional de quadrinhos. E sou mais fã ainda do Homem-Aranha. Logo, tive que esperar sete anos para ver o meu herói preferido nos cinemas. A trilogia Homem-Aranha (2002), Homem-Aranha 2 (2004) e Homem-Aranha 3 (2007) foi um grande sucesso de bilheteria, tanto que renderia um quarto filme. Mas, por motivos de contrato com atores e a recusa do diretor Sam Raimi (que foi obrigado a aceitar mudanças no roteiro do terceiro filme, como a introdução do personagem Venom, pelos executivos da Sony), foi-se decidido que a melhor opção seria realizar um reboot da série, uma alternativa arriscada, pois em menos de 10 anos já se atualizaria uma saga que estava recente demais na memória das pessoas.

Nessa nova aventura, toda a beleza e simplicidade criada por Stan Lee e Steve Ditko no início da década de 1960, de um garoto frágil e inseguro, extremamente impopular no colégio, alvo de valentões, e sem as ferramentas sociais que lhe valeriam uma namorada, amigos ou um lugar no grupo é deixada de segundo plano. Não é mais a síntese do herói. O Peter Parker na pele de Andrew Garfield, não tem nada de desajeitado: anda de skate, usa lentes de contato e enfrenta valentões de peito aberto – ao receber seus poderes, a única mudança é que ele efetivamente consegue derrubá-los. Peter Parker não é mais uma vítima, mas um herói desde o início. A ideia parece boa a princípio, mas se analisada, diminui o conceito de quem é e como foi criado o personagem nos quadrinhos. Que na minha opinião, deve-se ser sempre a principal ideia.


Focando apenas no filme em si, e ignorando todas as exigências de fã antigo, o longa tem ótimos elementos de adaptação, mas possui mais elementos negativos e difíceis de aceitar. Os atores Andrew Garfield (Peter Parker), Emma Stone (Gwen Stacy) e Martin Sheen (Tio Ben) são fisicamente perfeitas escolhas. As interações entre eles são ótimas e só melhoram na direção de Marc Webb (500 Dias Com Ela), que sabe muito bem como extrair atuações honestas desse tipo de cenas de intimidade. Os diálogos iniciais entre Peter e Gwen são engraçados e bem fiéis aos das HQs da década de 1960. O tio Ben está bem caracterizado também, apenas tia May de Sally Field está um tanto apagada, um tanto decepcionante. Já o vilão Curt Connors/Lagarto (Rhys Ifans) está totalmente descaracterizado. Surge sem a sua família (algo fundamental para suas motivações nos quadrinhos) e mais inteligente, falador até. Ainda que em algumas HQs o vilão retenha inteligência, ele destacou-se sempre como um fera enlouquecida e sem controle. Na trama em si ele funciona bem, garantindo a ação. Para os fãs, porém, sua participação na criação do próprio Homem-Aranha, a ligação com o pai de Peter e outras alterações em relação à origem consagrada podem parecer devaneios mercadológicos de produção. Mudanças desnecessárias.


O filme também cria uma situação mal resolvida em relação aos pais de Peter. Totalmente sem sentido. Entendo que é um gancho para os próximos filmes, mas mesmo assim, é uma situação que não precisava ser desenvolvida. Nos materiais de divulgação, havia a frase: " A história nunca antes contada", e por que será que nunca foi? Outra questão muito mal explorada é a morte do Tio Ben. Esse fato é de suma importância na decisão de Peter em usar seus poderes para ajudar as pessoas, de realmente se tornar um herói. No filme ela é tratada como algo banal e irrelevante. Dá entender que tanto faria se Ben morresse, ou não. Até a célebre frase "Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades", não é citada. Por quê?

O que há de melhor no filme são as cenas de ação. Todas estão espetaculares. O Aranha está muito mais ágil e veloz, seus movimentos estão muito mais parecidos com os dos quadrinhos do que os filmes anteriores. A maneira como ele luta, se desvia, salta, lança a teia está perfeita. Até o uniforme que foi tão criticado quando apareceu pelas primeiras vezes em fotos, está bom. Mesmo mudando um pouco o design e as cores, pode-se afirmar que o uniforme foi aprovado. O humor negro e infâme está muito mais presente também. Os lançadores de teia ficaram excelentes. A cena onde Peter cria uma teia "gigante" no túnel do esgoto está memorável. Aliás, todas as lutas contra o Lagarto estão. Foram três durante o longa, mas entraram para a história do cinema.


Infelizmente o roteiro remendado de Alvin Sargent, James Vanderbilt e Steve Kloves exige uma carga extra de suspensão de descrença (maior do que acreditar que alguém vira uma aranha-humana ao ser picado) quando entram os elemento super-heróicos. Por exemplo, não dá pra aceitar que Gwen Stacy, uma mera estudante colegial de 17 anos, por mais brilhante que seja (e não vemos provas desse brilhantismo em momento algum), seja uma superestagiária-chefe em um dos maiores laboratórios de pesquisa do mundo (a Oscorp), cheia de responsabilidades que serão a chave para a resolução da trama. A história, portanto, depende demais de coincidências convenientes para se manter em pé. Acompanhe: o pai de Peter está relacionado ao cientista Curt Connors, que por sua vez é chefe de Gwen Stacy, que estuda na mesma classe de Peter, que encontra a pasta de seu pai que contém documentos indispensáveis à pesquisa de Connors, na qual Gwen trabalha ativamente! Mais uma vez, por quê?

É realmente uma  pena que o roteiro não esteja à altura do legado do personagem tanto nos quadrinhos, como no cinema. Se os produtores erraram ao forçar demais a mão em Homem-Aranha 3, arrancando de Sam Raimi sua liberdade criativa, e o perderam ao tentar fazê-lo mudar de ideia quanto aos vilões e o tipo de filme que Homem-Aranha 4 deveria ser, aqui erram com a mesma intensidade. Se tivesse este mesmo visual e técnicas e contasse com um roteiro mais simples e fiel a obra original, o filme seria realmente espetacular, mas infelizmente, espetacular fica apenas no título.


4,5 PIPOCAS!

 
 
 
 
The Amazing Spider-Man – EUA , 2012 – 136 min.

Direção: Marc Webb

Roteiro: Alvin Sargent, James Vanderbilt, Steve Kloves

Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Denis Leary, Martin Sheen, Sally Field, Irrfan Khan, Campbell Scott, Embeth Davidtz, Chris Zylka, Max Charles


 


terça-feira, 19 de junho de 2012

MIB – Homens de Preto 3


É incrível como eu consigo lembrar fácil de MIB – Homens de Preto (1997). Basta eu fechar meus olhos e cenas do filme veem a minha cabeça. Agora, MIB 2 (2002) é um grande branco na minha memória. Parece até que fui vítima do neurolizador e todas as lembranças que eu poderia ter do segundo filme foram apagadas. Mas na verdade, eu sei o motivo. Enquanto o primeiro filme teve um ótimo roteiro, boas piadas, excelentes efeitos especiais, bons personagens, originalidade; o segundo se preocupou apenas em explorar os efeitos especiais e a ação desmedida, limitando-se a reciclar piadas e situações já vistas no filme anterior. Analisando dessa maneira, alguém pergunta: "MIB precisa de mais uma continuação?" e eu respondo: "Com certeza. Para ficarmos com algo bom na lembraça." E ainda bem que isso acontece.

A trama começa quando Boris, o Animal (Jemaine Clement) consegue escapar da prisão e sai atrás daquele que o prendeu, K (Tommy Lee Jones). Mas o seu plano não se restringe apenas a vingar os últimos 40 anos em que passou na prisão. Ele decide voltar no tempo para matar o seu captor e ainda impedir que toda a sua raça seja extinta. Cabe então a J (Will Smith) voltar também no tempo e impedir que tudo isso aconteça.


A grande qualidade desse terceiro longa, é que ele lembra muito mais o primeiro do que o segundo. Mesmo o roteiro não tendo grandes novidades, nem conceitos inéditos de viagens no tempo, ele é bem conduzido e estruturado. As piadas estão ótimas e Will Smith rouba a cena mais uma vez. Todos os aliens estão criativos e perfeitos da concepção à execução. Logo na primeira cena, temos a certeza da qualidade que veremos ao longo do filme. E temos ainda todas as criaturas dos anos 1960, que foram criadas à imagem que se tinha dos alienígenas daquela época, com aquário na cabeça, cara de peixe, etc.

O grande vilão da trama deve ser elogiado também, um ótimo trabalho de Jemaine Clement. Boris, o Animal, convence tanto quanto o "Edgar", a barata gigante do primeiro MIB, e muito mais do que a dupla Johnny Knoxville e Lara Flynn Boyle do segundo. Ele é cruel e mata sem escrúpulos, fora possuir uma grande importância na trama central. Outro personagem que também merece ser lembrado é Griffin (Michael Stuhlbarg), o carismático alienígena que está ali para guiar os protagonistas (e principalmente ao público) na trama, ensinando o básico sobre as viagens no tempo, o que acontece ao se mexer no passado e os presentes alternativos que podem coexistir. Griffin está ali para esclarecer qualquer outra dúvida que surgir pelo caminho. E por falar em viagens no tempo, toda a ambientação no passado é impecável, principalmente o K jovem interpretado por Josh Brolin. É impressionante como ele conseguiu pegar a entonação e os trejeitos do velho Tommy Lee Jones e recriá-las à perfeição. É esta viagem no tempo que traz ao filme um frescor que faltou ao segundo.


O filme tem um desfecho nunca visto antes na saga, algumas pessoas podem torcer o nariz para o sentimentalismo que eles tentaram dar ao filme, mas a verdade é que é uma saída que faz sentido e ainda homenageia o que foi feito antes. E para quem não gostar, tem sempre o neurolizador.
 
 
 
8 PIPOCAS!
 
 
 
Men in Black 3 – EUA, 2012 – 106 min.

Direção: Barry Sonnenfeld   

Roteiro: Etan Cohen

Elenco: Will Smith, Tommy Lee Jones, Josh Brolin, Jemaine Clement, Michael Stuhlbarg, Emma Thompson
 

 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Os Vingadores – The Avengers


Desde quando a Marvel Comics decidiu ter um estúdio cinematográfico próprio, eu sabia que ela se utilizaria da sua principal característica: a interação de seus personagens. Pois, um dos grandes trunfos da Marvel nas décadas de 1960 e 1970, foi justamente fazer seus personagens interagirem entre si. Com isso, ficava claro que eles não estavam isolados em seu próprio universo, e sim, que faziam parte de um universo como todo. É comum ver o Homem-Aranha participar de histórias do Quarteto Fantástico, ou os X-Men enfrentarem um vilão do Demolidor, por exemplo. Se essa é a sua principal característica nos quadrinhos, porque não explora-la no cinema? E é exatamente isso que acontece em Os Vingadores.

Quando um inesperado inimigo aparece e ameaça a segurança e a tranquilidade do mundo, Nick Fury, diretor da agência internacional de pacificação conhecida como S.H.I.E.L.D., se vê em busca de uma equipe capaz de tirar o mundo da iminência de um desastre. A trama foi se estabelecendo entre os filmes Homem de Ferro (2008);  O Incrível Hulk (2008);  Homem de Ferro 2 (2010); Thor (2011) e Capitão América – O Primeiro Vingador (2011), mas quem nunca assistiu nenhum filme solo dos personagens principais, não tem com o que se preocupar, a história é fechada e coesa, sem problemas de entendimento. E para quem achava que não era possível criar um bom roteiro com tantos personagens, se enganou, o filme não é só ação por si, tem uma boa história estruturada.
 

É incrível como o diretor Joss Whedon consegue dar destaque para todos os personagens, até mesmo os não tão badalados Gavião Arqueiro e Viúva Negra. Joss não tem muita experiência no cinema, foi o criador dos seriados Buffy – A caça-vampiros, Angel e Firefly; e  dirigiu apenas um filme, Serenity (2005), mas é um excelente roteirista e escritor, são dele, por exemplo, os primeiros arcos de uma das mais empolgantes séries em quadrinhos dos mutantes da Marvel, Os Surpreendentes X-Men. Todo o seu conhecimento do mundo dos super-heróis é mostrado no filme, Joss soube exatamente como manejar as participações de cada um de seus superprotagonistas, dando a eles funções específicas e importantes dentro da trama. Não gostei apenas da forma como a S.H.I.E.L.D. foi explorada. Nas histórias em quadrinhos, ela é de suma importância dentro do universo Marvel, mas no filme ela é tratada apenas como um mero expectador da eminente catástrofe mundial.

Mesmo com tantos personagens, Anthony Stark é o que mais se destaca (mesmo o porque, o filme do Homem de Ferro foi o que mais lucrou depois de Os Vingadores). Não poderia ser diferente, Robert Downey Jr. está fantástico mais uma vez, com o seu humor ácido e comentários engraçados. O estreante no papel de Hulk, Mark Ruffalo (em O Incrível Hulk quem fez o papel foi Edward Norton) está muito bem também, tanto como Bruce Banner, como a fera Hulk, Mark consegue mesclar bem os dois lados do personagem. Diria até que esse pode ser o Hulk definitivo no cinema. Thor (Chris Hemsworth) e Loki (Tom Hiddleston) estão melhores do que em seu filme solo, principalmente o vilão, que se torna uma real ameça para todos. Chris Evans, o Capitão América, se encaixa bem como líder da equipe, só lamento por não ter o famoso "Avante, Vingadores" gritado por ele, mas quem sabe em uma continuação?


A ação está incrível, mas que fique claro, que ela não é o foco do filme, o primeiro ato, por exemplo, é bastante arrastado em comparação ao explosivo e superelaborado clímax (Michael Bay poderia aprender aqui uma lição de como relacionar personagens e focos de ação distintos em um todo coeso). Tanto a cena final, da destruição em Nova York, como as "batalhas" entre os heróis, estão excelentes, quase impecavéis. O que merece ser destacado também, é o lado cômico que o filme tem. Quase todos os alívios cômicos estão ótimos, se misturam com a ação de uma maneira muito pertinente. Com certeza esse é o filme de super-heróis mais engraçado.

Para quem, como eu, cresceu lendo essas histórias e acompanha o Universo Marvel como um casamento de décadas (nos bons, maus e péssimos momentos), portanto, ver a reunião das franquias Homem de Ferro, Thor, Capitão América e Hulk é uma vontade realizada. E vê-la bem realizada, um deleite. Os Vingadores – The Avengers é um filme de ação bem estruturado, que explora os pontos fortes de todo seu elenco e dá ao fã – leitor ou novato, que conheceu esse universo no cinema – exatamente o esperado,  entra desde já como mais um marco na celebrada história da Marvel e do cinema.

9,5 PIPOCAS!

 
 
The Avengers – EUA, 2012 – 142 min.

Direção: Joss Whedon

Roteiro: Zak Penn, Joss Whedon

Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Cobie Smulders, Stellan Skarsgård, Samuel L. Jackson, Gwyneth Paltrow, Paul Bettany, Alexis Denisof, Tina Benko








sexta-feira, 16 de março de 2012

Poder Sem Limites


A chamada filmagem em estilo documental amador está cada vez mais frequente nos filmes de hoje. Tivemos ao longo desses últimos cinco anos, várias produções que se utilizaram dessa técnica. Para citar algumas: REC (2007); Cloverfield – Monstro (2008); Atividade Paranormal (2009); entre outras. Nesse ano tivemos a estreia de Poder Sem Limites que se utiliza dessa estética, porém, não para encobrir defeitos e carências, mas sim por simples opção.

O filme fala sobre três garotos, Andrew Detmer (Dane DeHaan), Matt (Alex Russell), e Steve Montgomery (Michael B. Jordan),  que durante uma rave, encontram um estranho buraco que leva a um artefato subterrâneo. Banhados por sabe-se lá o quê, eles começam a desenvolver poderes telecinésicos. A partir daí o filme vira uma espécie de Jackass, com os moleques treinando suas recém-descobertas capacidades da maneira mais pueril possível: aplicando pegadinhas, se jogando coisas na cara, levantando a saia das meninas, exatamente o que adolescentes fariam se tivessem tal oportunidade. Nada de vestir fantasias e salvar o mundo.


O primeiro ato do filme explora demais a estética de filmagem amadora, com quadros que cortam as cabeças dos atores, câmera tremida e defeitos no áudio. Mas isso dá uma proximidade que ajuda a entender os personagens.  Andrew é o principal deles, é o típico esquisitão nerd do colégio, que sofre com valentões e tem sérios problemas com o seu pai alcoólatra. Seu primo metido a filósofo, Matt, e o atleta Steve Montgomery são mais populares, mas igualmente estereotipados dentro do universo colegial dos EUA que estamos tão habituados a ver nos cinemas. Já nos atos seguintes, conforme os garotos refinam seus poderes, começam até a manipular a câmera e o filme vai ganhando mais qualidade. Surgem também os ótimos efeitos especiais e fica claro que não estamos perante de um Atividade Paranormal, mas de algo mais perto de Cloverfield – Monstro. E é aqui que eu questiono que o filme não precisaria ter utilizado o estilo documental amador, pois fica claro o investimento envolvido.



E quando o clímax chega, fica a dúvida se a Warner Bros. precisa mesmo realizar uma adaptação para as telonas de Akira (1988). A influência do animê e mangá de Katsuhiro Otomo é clara no trabalho de Trank, que a utiliza misturando câmeras de segurança, filmagens de celular, de notíciários em uma explosão de ação totalmente inesperada. É o ponto alto do filme, Dane DeHaan rouba a cena com uma atuação muito realista e convincente. A estética amadora contribui muito para isso.

Acho que essa fórmula de documentário amador já cansou, mas tenho que admitir que uma boa ideia explorada da maneira correta pode render um bom filme. Em Poder Sem Limites isso acontece, ele desafia expectativas e, no caminho, prova que a fórmula também pode ser revista e que há muitos caminhos possíveis para o gênero. Garotos nem sempre vão ser garotos.



7,5 PIPOCAS!




Chronicle – EUA, 2012 – 84 min.

Direção: Josh Trank

Roteiro: Josh Trank, Max Landis

Elenco: Dane DeHaan, Alex Russell, Michael B. Jordan, Michael Kelly, Ashley Hinshaw, Bo Petersen, Anna Wood