quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Super 8



Eu não sou muito nostálgico, mas não tem como não afirmar o quanto os filmes das décadas de 1980 e 1990 foram importantes para mim, foram os mais criativos que vi. Me lembro claramente a sensação de assisti-los na casa da minha avó, na famosa Sessão da Tarde. E foi exatamente esse sentimento bom que Super 8 me trouxe de volta, mas de uma maneira diferente, melhor.

A trama se passa no verão de 1979, quando um grupo de seis garotos, em uma cidade industrial de Ohio, testemunha uma catastrófica colisão noturna de um caminhão com um trem de carga. Eles registram tudo com uma câmera Super-8 com a qual estavam tentando fazer um filme. Não tarda para que eles comecem a desconfiar que aquilo não foi um acidente, quando misteriosos desaparecimentos começam a acontecer e o exército tenta encobrir a verdade – algo mais terrível que eles poderiam imaginar.

O diretor J. J. Abrams (criador da série Lost) não esconde que queria criar um filme com temas e ideias bem específicas, por isso a parceria com a produtora Amblin de Steve Spielberg, produtora que prosperou com filmes do diretor nos anos 1980 e foi criada durante a produção de E.T. – O Extraterrestre (por isso o logo é o Elliott voando com a bicicleta). Mas não se engane, o filme é influenciado por essa década, mas não é feito só para nostálgicos, sua história é desenvolvida de uma maneira brilhante, mesclando muito bem a "escola" do cinema clássico com o moderno. Não é apenas um E.T. com Goonies.

Eu não gosto muito de ver crianças atuando, são poucas que realmente me convencem, mas aqui, todas me agradaram. O elenco principal ajuda demais o desenvolvimento da trama. O protagonista Joe (Joel Courtney) está muito bem, transmite com perfeição o carisma e a carência de seu personagem. Alice (Elle Fanning) é outra personagem que merece destaque, com um olhar meigo e ao mesmo tempo desafiador, não deixa a desejar o filme todo. A cena onde está ensaiando a sua fala na estação de trem, ou quando discute com seu pai bêbado, fica claro quanto talento essa garota tem. Já o melhor amigo de Joe, Charles Kaznyk (Riley Griffiths), chega em alguns momentos roubar a cena. Ele tem um pouco do clássico perfil "nerd": é um garoto gordinho, viciado em cinema, metido a diretor e com grandes problemas de insegurança. Ele se destaca por um "fator surpresa" na trama, já que o mesmo tem um "choque de interesses" com o protagonista. Com isso, Abrams cria um personagem real e de fácil identificação. O núcleo secundário – composto por adultos –, tem menos qualidade, mas não chega a afetar o desenrolar do filme.

Claro que para haver rebeldia, afinal crianças investigando acontecimentos estranhos não é algo que seria simplesmente permitido, deve haver a autoridade. Sendo assim, o pai de Joe (Kyle Chandler), é um policial e o pai de Alice (Ron Eldard) é um opressor, que tenta controlar a vida da garota a todo custo. Nota-se aqui a preocupação que J. J. Abrams tem em moldar seus personagens logo no ínicio da trama. Joe e Alice, assim como seus pais, estão deslocados, perdidos em um mar de dúvidas e inseguranças. De um lado, crianças que perderam a mãe, do outro, pais que não sabem criar seus filhos sozinhos. Talvez esse seja a maior qualidade do filme, a capacidade de Abrams de criar emoções reais. Perceba que até o monstro responsável por todo o suspense do filme é um ser "deslocado", tanto que nunca é mostrado em foco. A criatura que escapou do acidente de trem é um vulto que surge em reflexos na água, encoberto por objetos, remexendo copas de árvores, só no final do longa é mostrado com mais detalhes. O diretor sabe que para estimular a curiosidade, deve utilizar-se do mistério (e isso ele sabe realmente como fazer), nesse sentido, Super 8 é mais parecido com Cloverfield, do que com E.T..

Entretanto, achei que a criatura ficou exagerada. Não vou entrar em detalhes para não estragar nada, mas não vi muito sentido nele como um todo. Talvez se usassem uma maneira mais "próxima" do real ficaria melhor. Algo mais "humano", como os "Camarões" do filme Distrito 9 (2010). Mas é claro que aqui ele é apenas o pano de fundo para o desenvolvimento da história.

Alguns podem achar que Super 8 não passa apenas de uma montagem com filmes que consagraram Spielberg no cinema, mas fica nítido o toque pessoal de J. J. Abrams. Desde a forma como é conduzido, até detalhes, como a ótima trilha sonora, que foi feita pelo excelente Michael Giacchino. É um filme que possue como essência, o destrichamento dos personagens e a mensagem a ser passada, apesar do monstro por perto. Super 8 é um autêntico filme apaixonado pelo cinema, que respeita a arte, seus processos, mas não tem preconceito com gêneros. Conta uma história de uma maneira divertida, despretenciosa e surpreendentemente sincera. É um filme para os adoradores da sétima arte, da geração anos 1980 até 2000.



9 PIPOCAS!

Ficha técnica:

Super 8 – EUA, 2011 – 112 min.

Direção: J. J. Abrams

Roteiro: J. J. Abrams

Elenco: Joel Courtney, Elle Fanning, Kyle Chandler, Riley Griffiths, Ryan Lee, Joel McKinnon Miller, Noah Emmerich, Glynn Turman, David Gallagher, Ron Eldad


2 comentários:

Jully disse...

Filme phodástico!! JJ nunca me decepciona! Assistam! Adorei o seu texto! Parabéns Tiago! Beijinhos! (Te mandei um e-mail, me responda, tá??)

Thiago Sakowski disse...

Oie, Jully! Sim! J.J. nunca me decepciona! Não vou compara-lo com ninguém, mas a cada filme ele prova que é MUITO melhor que diversos diretores por aí... obrigado pelo comentário! Beijos!